8. MUNDO 29.8.12

1. ARGENTINA SEM DIREO
2. A TENSO VOLTOU

1. ARGENTINA SEM DIREO

Queda de brao entre a presidenta Cristina Kirchner e lderes da oposio leva o caos ao sistema de transporte do pas e prejudica milhes de argentinos
Pedro Marcondes de Moura 

AO VOLANTE - Cristina diz que a responsabilidade pela greve no metr  do prefeito de Buenos Aires, seu principal adversrio poltico
 
A cada vez mais encarniada guerra poltica na Argentina deixou os gabinetes para atingir o lado mais frgil dessa batalha  o da populao. Nas ltimas semanas, os moradores de Buenos Aires, administrada por Maurcio Macri, principal lder da oposio ao governo da presidenta Cristina Kirchner, enfrentaram uma situao de caos no sistema de transporte pblico da cidade. Responsveis pela locomoo de cerca de um milho de pessoas diariamente, os vages do metr da capital permaneceram parados por dez dias, em decorrncia da greve de seus 4,3 mil funcionrios. Em um movimento liderado por sindicalistas afinados com a presidenta Cristina, eles exigiam 28% de reajuste salarial e melhores condies de trabalho. S voltaram a trabalhar aps um acordo na segunda-feira 13, no qual conseguiram 23% de aumento. Entre a populao, no entanto, o clima  de desconfiana. A paralisao foi a terceira deste ano e a ameaa de novas interrupes do sistema continua.
 
Pioneiro no Hemisfrio Sul, o metr de Buenos Aires passou de smbolo do apogeu argentino no comeo do sculo passado  a primeira linha foi inaugurada em 1913  para um estorvo sucateado com 57 quilmetros de extenso. Mais grave ainda: os trens subterrneos se tornaram pea-chave no jogo poltico entre a presidenta peronista Cristina Kirchner e aquele que promete ser o seu principal adversrio na eleio presidencial em 2015: Maurcio Macri, prefeito da capital do Pas e integrante do conservador Partido Proposta Republicana. Cada um deles empurra a encrenca para o outro. Com o preo da passagem mantido com 70% de subsdios, nenhum dos lados quer assumir o controle do metr. No meio da confuso h ainda uma empresa privada responsvel por explorar o servio, por meio de uma concesso obtida na gesto do ex-presidente Carlos Menem, e que ameaa largar a operao aps amargar sucessivos prejuzos. Segundo especialistas, o preo da passagem teria de subir 300% para a operao se tornar vivel sem incentivos. Seria um custo poltico que nenhuma das partes pretende pagar.

POR QUE PAROU? - Grevistas param o metr: para ser vivel, o preo da passagem teria de subir 300%
 
Durante a greve, enquanto os argentinos enfrentavam filas gigantescas para tentar um lugar nos nibus lotados, representantes do governo federal e municipal trocavam crticas. Em entrevistas, o prefeito de Buenos Aires acusou a presidenta de fomentar a greve como manobra para desestabiliz-lo politicamente. Do outro lado, o secretrio de Transportes da Argentina, Alejandro Ramos, afirmou que a confuso  obra do prefeito Macri, que  o responsvel pelo metr. A declarao do aliado de Cristina se baseia em um acordo firmado no comeo do ano. Nele, o governo federal passava a gesto do sistema para a prefeitura e se comprometia a transferir cerca de 35 milhes de pesos mensalmente para manter o servio.
 
No foi, porm, o que aconteceu. Cristina enviou recursos abaixo dos valores acertados e o prefeito devolveu publicamente o metr, alegando no dispor de verbas para mant-lo. Pesou na deciso o temor de um acidente similar ao da rede ferroviria da cidade, que deixou, em fevereiro passado, um saldo de 50 mortes. Irredutvel, a presidenta aprovou uma lei no Congresso confirmando a transferncia do metr ao municpio. Tradicionalmente, os argentinos fazem poltica com as vsceras, diz Williams Gonalves, professor de relaes internacionais da Uerj. Tanto governo como oposio travam inflamadas disputas sem margem para negociaes. Com Cristina, no  diferente. Nesse contexto, colocar obstculos nos trilhos dos adversrios polticos parece ser prioridade.


2. A TENSO VOLTOU

China e Japo entram em disputa territorial que desperta rancores antigos, gera protestos nos dois pases e abre crise diplomtica 
Fabola Perez

CONFLITOS - Chineses quebram carros japoneses (acima) e ativistas protestam no Japo contra tentativa da China de ocupar ilha rica em petrleo

As velhas feridas esto de volta. Desde os conflitos sangrentos da Segunda Guerra Mundial, Japo e China tm mantido relaes frias o bastante para no provocar atritos, mas nos ltimos dias o cenrio de tranquilidade mudou. A tenso se instalou depois que ativistas chineses desembarcaram nas ilhas Senkaku, alvo de disputa territorial entre as duas naes, e foram deportados. Na semana passada, em resposta  ocupao chinesa, uma frota de 20 navios japoneses, com cerca de 150 militares, aportou no arquiplago para reafirmar a soberania do pas sobre o local, garantida por um tratado assinado em 1951.  um territrio indiscutivelmente japons, afirmou Eiji Kosaka, um poltico de Tquio. Do outro lado, a reao tambm foi rpida. Em pelo menos oito cidades, milhares de chineses saram s ruas para protestar. Em Shenzhen, na fronteira com Hong Kong, carros e multinacionais de origem japonesa foram depredados. Autoridades chinesas tambm se pronunciaram. O Ministrio das Relaes Exteriores manifestou seu enrgico protesto  embaixada japonesa na China, pedindo ao Japo que se abstenha de qualquer ao que atente contra a nossa soberania territorial, declarou o governo em um comunicado.
 
Para o diretor do Centro de Estudos Japoneses da Universidade de So Paulo (USP), Koichi Mori, o que est por trs da disputa  o momento de transio poltica pelo qual passa o Partido Comunista Chins. A China quer ampliar seu territrio e firmar uma posio de supremacia sobre os demais pases asiticos, explica ele. Para isso, a estratgia foi reacender o conflito e incentivar a populao a protestar pela regio. As oito ilhas ocupam um total de sete quilmetros, entre China, Japo e Taiwan. Alm de estarem prximas a importantes rotas de navio, so reas pesqueiras frteis e possuem reservas de petrleo e de gs de expressivo valor financeiro. A disputa alimentou rancores antigos. Segundo pesquisa recente, 84% dos japoneses possuem uma percepo negativa dos chineses. Na outra ponta, 64% dos chineses tm uma imagem negativa dos japoneses.
